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Eu escolhi morar fora.Por que estou triste?

A culpa no luto migratório

Existe uma frase que aparece com frequência na experiência de quem migrou por escolha: “Eu não deveria estar me sentindo assim.”

Afinal, você quis mudar de país. Talvez tenha planejado essa mudança durante anos. Conquistou uma oportunidade profissional, acompanhou alguém que ama ou realizou o sonho de construir uma vida diferente.

Então por que existe tristeza? Porque escolher uma mudança não significa deixar de sofrer pelas perdas que ela provoca. Esse é um aspecto importante do luto migratório.

Duas experiências podem coexistir

É possível estar feliz com aquilo que conquistou e sentir profundamente a falta daquilo que deixou. É possível gostar do país onde vive e sentir saudade do Brasil. É possível não querer voltar e, ainda assim, desejar estar perto da família. Essas experiências não são contraditórias.

Quando a culpa se soma à saudade

O problema começa quando, além de sentir tristeza, a pessoa passa a lutar contra ela. Pensamentos como “eu deveria estar feliz”, “tem tanta gente que gostaria de estar no meu lugar”, “eu não tenho motivo para reclamar” ou “talvez eu seja ingrato” costumam aparecer nesse momento.

Na tentativa de afastar essas emoções, algumas pessoas começam a se cobrar ainda mais, esconder o sofrimento ou evitar falar sobre ele.

O olhar da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)

Na ACT, entendemos que tentar eliminar constantemente pensamentos e sentimentos difíceis pode acabar aumentando o sofrimento. Em vez de transformar a saudade em algo que precisa ser combatido, podemos aprender a reconhecê-la e abrir espaço para essa experiência.

Talvez a pergunta não precise ser “como faço para parar de sentir saudade?”, mas sim: “como posso cuidar dessa saudade e, ao mesmo tempo, continuar construindo a vida que escolhi viver?”

Cuidar da saudade sem abandonar a vida que você escolheu

Aceitar a tristeza não significa desistir da adaptação. Significa reconhecer que algumas escolhas importantes carregam ganhos e perdas.

E talvez amadurecer a experiência migratória também envolva perceber que podemos sentir gratidão pela vida que construímos sem precisar negar a falta que a vida anterior ainda nos faz.

Algumas perguntas podem ajudar nesse processo: o que eu ganhei com essa mudança? Do que sinto falta hoje? Que sentimentos tenho tentado evitar? Como posso cuidar da saudade sem me afastar da vida que quero construir?

A psicoterapia pode oferecer um espaço para acolher a ambivalência, compreender a culpa e se reconectar com aquilo que realmente importa, sem precisar escolher entre valorizar a vida atual e sentir falta do que ficou.

“Gratidão pela vida construída e saudade da vida anterior podem existir juntas.”